Thursday, July 26, 2007

"A gente quer inteiro, e não pela metade"

Em tempos de Pan, muito se fala sobre a importância do esporte para a inclusão social e a conquista da cidadania de crianças pobres. Já tive grandes discussões sobre isso com uma pessoa diretamente ligada à política pública de esportes. Não há dúvida de que é muito melhor que uma criança esteja numa Vila Olímpica praticando esportes do que no meio da rua aprendendo a cometer delitos; não obstante, é óbvio que a prioridade não deve ser essa.


Uma justificativa? Dou um exemplo: ontem duas atletas adolescentes provenientes de comunidades carentes deram entrevista ao vivo em um telejornal. As meninas eram medalhistas, mas não sabiam articular os pensamentos mais simples, ficavam perdidas e repetiam as mesmas frases vazias duas, três vezes. Fiquei constrangida por elas.


Isso é dar cidadania? Passados os anos de glória no esporte, o que vai lhes sobrar? Que lugar vão ocupar na escala social e profissional? Vão viver os resto da vida com um salário mínimo por mês, comendo mal, sem acesso à saúde, tendo dez filhos, que, por sua vez, poderão ou não ter a mesma "sorte" e possuir um talento natural para uma passagem gloriosa - porém breve - pelo esporte?


Que ninguém venha me falar de esporte como se fosse o caminho para dar às pessoas uma vida melhor. Por favor, dêem-lhes escola de qualidade e, com isso, o que mais lhes convier - esporte, dança, arte... O povo agradece.


5 comments:

Wagner said...

Como discordar? Penso do mesmo modo.
É claro que o esporte é importante e pode ajudar muito, mas APENAS ele não é suficiente para formar um cidadão, comme il faut.

Daniele said...

Não dá pra discordar mesmo. Primeiro a educação, a capacidade de ler e interpretar, além dos livros, o mundo. Se a vida já é curta, a vida do atleta então nem se fala. E depois, que é a maior parte? Ninguém vive de amanhã, mas viver sem nem sequer pensar no futuro, pelos exemplos que eu já vi, não dá muito certo.

Bruna said...

Oi !
O esporte tem que estar dentro da escola (públicas e particulares), como acontece em Cuba. Isso faz com que se tenha contato com esportes desde criança e, assim, possibilite a descoberta de novos atletas. O objetivo de um incentivo ao esporte num país não é formar atletas profissionais e ganhar medalhas de ouro, e sim educar o cidadão através da disciplina, da convivência em grupo, da competitividade, além, é claro, de ser saudável. Esporte, educação e saúde, esses 3 fatores têm que estar juntos para que um país se desenvolva.

Lys said...

Wagner, este nosso país dá um cansaço, não é? Não há esperanças, meu caro. Educação? Que nada! Um dia, religião; no outro, esporte. E assim todos seguem, como se acéfalos.

Daniele, é um discurso muito gasto, eu sei, mas quem quer que os eleitores tenham capacidade de ler e interpretar? Isso implica que eles terão a capacidade de pensar por si mesmos. Quanto mais ignorância, mais riquezas mal dividas.

Bruna, o problema é que a gente liga a TV e escuta a lenga-lenga do esporte sendo apresentado como uma nova panacéia. Isso me irrita demais, especialmente quando acabei de ver duas medalhistas sendo entrevistadas e elas não conseguem articular as idéias mais simples. Acho triste. E em vez de investir em educação, o que a gente faz? Gasta milhões (ou bilhões?) construindo estádios esportivos.

Anonymous said...

Sempre em epoca de Pan, Olimpiadas ou alguma competicao internacional ... vejo essa questao exatamente com os mesmos olhos que voce ...
Sempre que vejo "projetos" de cidadania que incluem danca, capoeira, aulas de musica ... me sinto assim meio "insensivel" a tudo isso, claro que a arte, o esporte sao importantes, mas quantas pessoas que conhecemos que vivem da arte, do esporte ... Acho que sao atividades complementares, nas quais alguns e apenas alguns terao sucesso, aptidao e se realizarao profissionalmente (ate quando ???) Mas com toda a certeza cidadania e muito mais que mascarar inclusao social atraves do esporte ... e ter uns breves momentos de gloria !!!


Raquel