Friday, October 27, 2006

As pedras do caminho

Eu tenho medo da mediocridade em mim, e não é um medinho magro, esquálido. Por isso fico fugindo. Tento ser brilhante, sem sucesso a maior parte do tempo, só conseguindo ficar no meio do caminho, o que às vezes me basta, contanto que a mediocridade não encoste em mim. Mas às vezes ela consegue, e me lambuza com a sua gosma fétida e ácida.

Se eu tivesse escolhido estudar, digamos, matemática, talvez pudesse enganar mais. Passaria noites em claro fazendo cálculos, que falam por si, e pronto. Mas não. Eu penso demais em subjetividades, investigo entrelinhas, tenho certezas rarefeitas e minhas idéias só se conectam em pedaços de papel. Quando chega aquela parte da música

você é tão articulada
quando fala não pede atenção

pode ter certeza de que infelizmente não estão cantando para mim.

8 comments:

Simone said...

uia que a matemática teria sido menos crucificante. Alguns cálculos e diriam: puxa, ela é muito perspicaz... lê nas entrelinhas!!! Tudo por conta da perspectiva, e de quanto a percepção das coisas pode ser limitada por idéias e conceitos tendenciosos (ou ideológicos).Uma mudança de perspectiva ajuda a perceber que a mediocridade está em todos os olhares.

rosangela said...

Eu conheci uma menina que fazia tese de mestrado, depois fez de doutorado, em matemática... Ela chegava da Uni, sentava-se em sua mesa na sala principal, em frente à grande janela com vista pra rua. Quando eu passava, ela estava sempre lá, meio que meditativa, batendo com o lápis na ponta do queixo... E sorria pra mim...Nestes momentos nunca torcávamos mais que algumas poucas palavras. Ela estava ali com os númeors dela. Mas ela nunca, nunca mesmo, passou uma noite em claro com eles. Era super metódica com o tempo que passava entre os seus números. Acho que posso dizer que ela tinha certezas na vida, segura entre os seus números, fiéis... Mas eu não ousaria dizer que ela era articulada.

Sabe-se lá pra que é que bom você ter escolhido outra matéria... :)

Abraço,

isabel said...

ler-te e pensar: eu sou assim. não te assustes Lys, mas identifico-me tanto com o que escreves que eu própria fico um pouco assustada. um abraço enorme. isabel

Marcos said...

Hehe, gostei do que falou sobre a matemática. Como um escravo dela, costumo dizer que é a área dos preguiçosos, como eu, basta saber ouvir o que ela fala que ela fala sozinha, não tem meios termos.

Suzana said...

Eu estou tão desatualizada e atrasada nos comentários, que só tenho uma coisa a dizer dos três últimos posts: desancana. Aos 36 anos, custa uma baba a gente se livrar das rugas de preocupação :o)

carla said...

Eu jogo no time da Isabel, as vezes nem comento com medo de parecer ridicula.

Lys said...

Simone, a mediocridade está em todos os olhares? Será? Tem gente que me engana direitinho.

Rosangela, me vejo total aí no lugar dessa moça que olhava pela janela. Só a matemática salva os inarticulados! :)

Isabel e Carla, não me surpreendo com o que se passa com vocês porque o mesmo acontece(ia) comigo lendo os seus blogs. Porque eu já saquei que os meus blogs favoritos, de leitura diária, são aqueles em que outras pessoas escrevem as coisas que EU penso o tempo todo. A gente procura os iguais e se sente confortável. "Vive la différence!" jamais será o meu lema (não que isso seja bom, é apenas inevitável).

Marcos, que bom que você ratifica o que eu disse. Eu achei que talvez pudesse estar sendo preconceituosa. Sempre gostei muito de matemática e até poderia ter seguido pelo caminho das Ciências Exatas, mas fui cair na tolice de me deixar levar pelo que me pedia o coração. Agora agüento!

Suzana, se desencanar fizesse parte do meu "dicionário de vida", eu não teria mais nenhum problema. Mas não, minha especialidade é ficar encanada - nem te conto a metade.

carla said...

Lys, tenho novidades. Dá uma olhada: http://baianices.wordpress.com/