Tuesday, March 06, 2007

Volta às aulas

É um tanto penoso recomeçar. A burocracia das fotocópias, as ementas que não serão cumpridas, o sono. Quando pequena, eu sentia saudades da escola nas férias, mas isso já faz muito tempo; perdi o entusiasmo pueril. Não que o curso não me interesse mais, pelo contrário; no entanto, tenho consciência de que talvez este seja mais um diploma para guardar na gaveta. Essa obrigatoriedade de estágio me confronta com a verdade: vai ter coragem de seguir sonhos, de deixar o certo pelo duvidoso? E são sonhos verdadeiramente ou apenas mais uma tentativa de buscar o novo inalcançável? Velhas fórmulas para velhos problemas. Eu já sei que não funciona; contudo, me sinto na obrigação. Faça alguma coisa! Faça alguma coisa! Não é o que dizem? Não está feliz, mude. Debata-se inutilmente na água morna da acomodação; o que não se pode é permanecer inerte enquanto afunda.

7 comments:

Wagner said...

Pois é, Lys. Penso que, no seu caso, eu teria as mesmas dúvidas (ou então dúvidas muito semelhantes). E talvez tenha sido justamente por isso que não fiz outra faculdade — quando descobri que a primeira não era bem o que eu imaginava. Mas a sensação de me debater inutilmente (como você tão bem colocou) fez com que eu seguisse boiando até a praia, e, uma vez na areia, levantei e segui para bem longe da água. Não estou certo se esta foi a melhor opção, mas agora é demasiado tarde para mergulhar novamente.
Espero que você aproveite de algum modo (mesmo que não profissionalmente) o tempo que está dedicando aos seus novos estudos.
Em todo caso, apenas por ter tentado você já ganhou minha mais completa admiração.

Lys said...

Wagner, o mesmo se passou comigo quando eu terminei a primeira faculdade. A universidade provou ser um engodo dos maiores. As minhas perspectivas profissionais eram patéticas ao me deparar com a realidade do mercado de trabalho. Então eu decidi que cursos universitários não compensavam e fiquei treze anos longe da vida acadêmica. Para matar a minha sede de conhecimento, fui fazendo uns cursinhos despretensiosos aqui e ali. Mas então o desconforto foi ficando insuportável, e a pressão do "faça alguma coisa" venceu o comodismo. O problema agora é a questão do dinheiro. Não consigo abrir mão de jeito nenhum das minhas conquistas (não que elas sejam tão grandes, mas enfim...). E tem outra coisa: se eu não fizer estágio - e isso é quase certo, uma vez que eu trabalho o dia inteiro e não tenho tempo para mais nada - eu não vou nem conseguir me formar e pegar o diploma para colocar na gaveta. Quanto mais eu penso, mais desiludida eu fico. É nestas horas que eu gostaria de ter vinte anos e não me importar em ser sustentada pelo meu pai.

Carla said...

Affff! Me da uma sensaco boa de pertencer a um grupo ler seu post e o comentario de Wagner. Eu nao estou sozinha no mundo. Meu medo agora e de um dia voltar ao Brasil e ter que me reinventar. De novo.

Marcela said...

Lys, voltei. E voltei com novidades. hehehe. Tive medo de estar afundando no ano passado, resolvi fazer alguma coisa. Encontrei algo que mexeu comigo, que me tirou da cama de manhã. Eu precisava disso. Agora estou (quase!) na terceira fase do concurso Rio Branco. Será que o meu futuro é no Itamaraty??? Quem sabe, quem sabe??? É bom saber que tenho outras opções. Estava me sentindo presa e triste. Sem esperanças mesmo. Pensei até em trabalhar no TJ...argh! Anyway, é isso. Postei no blog. Amanhã embarco para a Itália. Quanta novidade, né?
Beijo grande

Lys said...

Carla, quer dizer que fora do Brasil você não sente "a" pressão para se reinventar? Me explica isso direito?

Marcela, já dei os parabéns; você é a imperatriz das mudanças radicais no meu planeta! Adoro mesmo quando vejo que pessoas que eu admiro conseguem sair do buraco da mediocridade. Eu tento, mas parece que não rola mesmo. Tenho dez mil medos de situações novas. Engraçado é que, nos últimos anos, uma das perguntas que eu mais ouvi foi "Por que você não tenta a prova do Rio Branco?". Eu sempre respondo que não tenho perfil, mas, sinceramente, qual é o meu perfil? Quá, quá, quá.

carla said...

Lys, eu JA me reinventei aqui. Alias, um arremedo de gente, foi o que eu virei: Esposa de classe media americana cansada de brincar de casinha, vai mudar pra um apartamento espacoso ainda esse ano. Gosta do trabalho, e do lugar onde trabalha, mas ganha pouco. Adora cozinhar, convida sempre os amigos mais intimos pra experimentar suas novas receitas. So bebe vinho tinto, doa a quem doer, a carne ou o peixe. Odeia inverno e sonha se mudar pra uma cidade mais cosmopolita.
Agora veja, voltando pro Brasil, eu teria que criar outra personagem, ne? Hahahahahahaha!

Lys said...

Carla, agora entendi. Acredito que seja difícil desempenhar o papel de esposa e depender. Essa é uma das situações que mais me amedrontam. Eu vivo dizendo que queria virar dondoca, mas sei que é da boca para fora. A não ser, é claro, que o dinheiro fosse meu e não de outra pessoa (marido, por exemplo). Para isso, só a loteria - que eu não ganho nunca. Me resta continuar tentando. Quem sabe um dia eu consigo?