Wednesday, August 22, 2007

Sem explicação

O problema reside em: meu tempo não é meu.

Meu tempo é da empresa para a qual trabalho. Meu tempo é da faculdade. Meu tempo é da minha família. Às vezes, meu tempo é dos meus amigos. Mas meu, que é bom, meu tempo não é.

Mentira, às vezes, ele é meu, mas, quando isso ocorre, eu descubro que não sei usar, tal e qual acontece com quem compra um eletrônico sofisticado e só sabe apertar Power, Play, Stop e Pause, qualquer outra função para sempre esquecida no manual não lido.

Obrigação. Lazer. O tédio se insinua em cada ranhura dos meus dias. Não é tristeza, compreendam, é só fastio. Nem chego realmente a me importar. Há momentos em que, como quem acorda de um longo sono, ainda meio letárgica, tenho breves momentos de inquietação e me pergunto se a vida é só isso mesmo, sound and fury, blá, blá, blá.

Meu tempo passa cada vez mais rápido. De segunda a sexta. De sexta a domingo – para onde vão todos os fins de semana? Já procurei entre as páginas dos livros, nas dobras das cobertas, nos quilômetros marcados no odômetro do carro. Não acho.

O supermercado, o almoço de domingo, o cinema. Toda a estranheza do mundo está em mim e ainda sorrio.

Decerto é chegada a hora de ler o manual.

4 comments:

Wagner said...

Minha vida atual é completamente diferente da sua, Lys, em todos os sentidos. Mas, curiosamente, experimento uma sensação bem parecida com a sua (se não for a mesma). O que só comprova que não é exatamente nossa vida que nos faz sentir determinadas "angústias" (não encontrei termo melhor).
Eu também espero (esperava?) algo mais da vida — mas o quê? Não sei, evidentemente, mas sinto que só isso é pouco, muito pouco. Será que desejo demais? Sei também (ou penso que sei) que depende de mim fazer por onde, mas isso exige uma energia que eu não acredito mais ter — auto-sabotagem? Pode até ser. O que me parece certo é que não gosto muito (ou nada) da minha vida atual, mas a anterior também era uma espécie de mentira, na qual resolvi acreditar! Ou seja, vivo me enganando... e com que propósito? Devo mesmo ser maluco... Pensando bem, talvez eu também deva ler o tal manual — mas acho que o joguei fora, pensando que seria inútil.
Se você encontrar alguma "resposta" no seu manual, por favor, me avise: quem sabe ela não acaba me servindo também de algum modo?

Daniele said...

Viu, é por isso que eu adoro esse blog! E a autora ainda por cima é "humirde". Olha que eu não leio Dan Brown, Paulo Coelho e cia., muito pelo contrário, eu digo que eu não posso ler isso de jeito nenhum, que deteriora o cérebro e o meu nunca foi lá essas coisas. Aqui comigo é Machadão pra cima (se é que dá), e pros lados.
Eu não entendo muito bem a vida. Sei lá. A epígrafe do Autran Dourado tá longe de ser um manual, mas já é uma boa dica. Escreva, Lys, escreva. Que você tem os seus leitores cativos. :D

Lys said...

Wagner, não estou bem certa se "não é exatamente nossa vida que nos faz sentir determinadas 'angústias'". Eu penso muito nisso. Será que as pessoas que conseguiram aquilo que eu não consegui sentem angústia? Será que não estão satisfeitas? Eu vejo tanta gente tranqüila. Será que todo mundo finge - para os outros e para eles mesmos?

Se você não gosta muito da sua vida, temos mais uma coisa em comum. Embora reconheça ter tido mais sorte que a maioria, "nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo", como diz o cantor. É a falta de algo que não sei o que é. Provavelmente é tudo. E nada.

Meu manual só tem uma instrução: quer, corra atrás. Mas, como você, eu não tenho mais energia. Disso tenho certeza.

Daniele, o que eu posso dizer? Só me resta agradecer a você pela gentileza e fofurice. :*

rosangela said...

Você tem o manual, Lys? Se tem manda uma cópia aí... Mas nem sei se adiantaria - eu não gosto de ler manuais... Acho que esta busca pelo sentido da vida, das minúcias, nas minúcias, faz parte de uma procura interna de todo mundo... mesmo aqueles que parecem resolvidos na vida... Nem vou dizer mais nada. Cheguei a escrever um grande parágrafo mas acho tudo lugar comum... Tédio é ffff
Mas acho a sugestão da daniele ótima: Escreva, Lys, escreva. :)