Wednesday, August 23, 2006

A arma apontada

Eu criei um mundinho cor-de-rosa em que tudo é perfeito e bonito. Nesse mundo há riso de bebê, livros, flores, sol da manhã e salário certo no fim do mês. Tudo o que é feio e incômodo fica barrado por um campo-de-força invisível mas poderoso. Eu deixei de ler os jornais. Eu deixei de assistir aos telejornais. Eu passei a evitar pessoas que vampirizavam a minha vida. Simples.

De repente, a realidade rompe todas as barricadas e se mostra, nua e crua.

Quase. Por um triz.

Eu não agüento mais isso -- ter que ficar grata por ter tido "sorte". Sorte é viver num lugar em que a criminalidade é apenas uma noção difusa, indistinta, como quando a gente ouve falar em Física Quântica.

Aí vem alguém me perguntar sobre as eleições de outubro e eu percebo que tudo perdeu a prioridade: saúde, trabalho, moradia, educação. Só penso em uma coisa: segurança. Ok, ok, esse é um problema estrutural, que não se resolve do dia para a noite e depende de dez mil outras questões sociais. Isso não se discute, mas vivemos uma emergência, será que o Rio vai sangrar até morrer?

[Esse texto não foi escrito por inspiração dos blogs que escreveram sobre violência ontem, mas eu preferia que tivesse sido. Ele surgiu de uma experiência pessoal e traumática pela qual passei no último sábado. Eu nem ia escrever nada, porque, bem, que trivial já ficou tudo isso, não? Mas ficou indigesto, meio que subindo e descendo pelo esôfago, e eu resolvi vomitar.]

7 comments:

Fezoca said...

poxa... :-(((((

Suzana said...

Se você não põe pra fora, ele acaba por engasgar você. Fique bem, Lys. Gostaria de ter mais o que falar - mas só posso dizer que sei o que você está sentindo, e melhorei muito quando escrevi no Breviário.
Fique bem, flor.

Thata said...

ô moça..sua cidade anda uma desgraça mesmo, em grande parte por um sucessão de governantes errados (por deus! o que são os Garotinhos?!). e a minha vai pelo mesmo caminho. Triste. Mas fica bem, ta?

Lys said...

Poxa mesmo, Fer. Você tem sorte de estar fora desse país sem futuro.

Suzanna, o pior é pensar na banalização de tudo isso. Ninguém se espanta mais, só sofrendo na carne é que a gente lembra que isso não é normal.

Thata, este caos não é "privilégio" do Rio e de São Paulo; está em Recife, está em BH, está em Vitória... e é triste. O casal Garotinho dispensa comentários. Que vão os dois para o quinto dos infernos junto com a cambada que veio com eles de Campos.

Beijos, meninas.

Marcela said...

Banal, né? Tudo ficou muito banal. Tá difícil. Que bom que vc está bem. beijos

Carol said...

Puxa vida, Lys querida. 'Que bom que você está bem' é o jargão mais valioso de todo nessas horas, te contar.
E não é Rio de Janeiro não. Ontem mesmo notícias tristes por aqui, que é três vezes menor.
Triste mesmo é esse absurdo extremo ter virado causo tão comum de se contar.
Alegrias mil pra você, pra compensar. Beijos.

Lys said...

Marcela, eu acho tão triste que seja banal.

Carol, um dia acabo me mudando daqui para sei lá onde. Não vejo saída. É impossível viver assim.